Amigos

12 de abr de 2011

Porque se fazem claras as coisas do mundo

Era um homem com um cordão amarrado ao tornozelo. Estava passando pela praça de chinelos e um par de olhos mirados para longe, carregando uma pasta grande com displicência – lá estavam várias pessoas. Das muitas que o notaram não houve uma que deixara de formular-lhe teorias comportamentais, psicológicas e até algumas acerca do magnetismo nos olhos do sujeito – haverá quem diga: “não só nos olhos”. Era um homem com uma aliança acima do calcanhar. Deveria representar algum pacto com Deus, como fazem alguns religiosos. Ou com o Diabo – como fazem alguns filósofos e interessados no assunto. Parece que pensava, na vida ou na morte da bezerra, talvez não; e pensava na comida em casa – se tivesse qualquer um dos dois – ou num plano de morte ou suicídio. No cordão, duas miçangas de tamanhos diferentes: a maior e mais disforme era preta (com algumas partes destingidas, como se estivessem raladas, mostrando a bruta madeira), enquanto a mais formosa e pequena era apenas branca e simples. Era notado de cima a baixo. Quando dirigiu sua mão ao rosto, via-se uma pequena ferida na parte inferior esquerda do queixo, onde acabava a barba, do tamanho de uma espinha ou pouco maior, aquele movimento foi como se o sujeito sacasse subitamente do bolso uma arma ou um canivete, e a ferida parecia um crivo que deixava escorrer uma parte do corpo da qual ele não precisava ou rejeitava. Era possível perceber algumas pessoas olhando-o incrédulas, como se não acreditassem no que viam. Era um homem com uma amarra no tornozelo, - a essa altura já haveria subido até o pescoço – e parecia uma marcha em romaria ou um tanque de guerra andando em praça pública – o que já fora normal de se ver, tempos atrás. Ele desfilava escorregando a sola do chinelo no chão suavemente, como se ensinasse tal arte ao mundo. Era um andarilho, um mendigo, um vagabundo, mas parecia estranhamente compenetrado em contemplar o nada, o caos que Deus ainda não desfez. Não olhava pra trás ou para o lado – talvez nem para frente. Ora um gênio, ora um Frank Stein; ora um “gentleman”, ora um pedinte; ora bom, ora ruim; verdade e erro. 
Era uma mulher com uma fita no cabelo. Sentaram e tomaram conversa. Seu sorriso tão natural denunciou sua humanidade singela no momento em que a encontrou, sabe-se lá o que pensariam ainda desse sujeito, mas tinha agora uma tornozeleira.

Guilherme Fontoura.

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