Amigos

19 de abr de 2011

Lúdico

Sou o filho do rei,
mas não o conheço, não o vi
sei onde está mas não passo por ali
Não sei do rei, não sei do rei


Sou filho do rei,
ando por aí...
Sei mais do que deveria
mas não do rei, não sei do rei


Sou filho do homem,
mas não canto aquele hino
sou nobre e sei como assim ser
mas falo como quero, como o que quero


Eu como o que quero
sonho com mais nada, tenho o que quero
sou filho da granada
tenho mais nada, quero tudo 


Meu fardo por um par de tornozelos

12 de abr de 2011

Porque se fazem claras as coisas do mundo

Era um homem com um cordão amarrado ao tornozelo. Estava passando pela praça de chinelos e um par de olhos mirados para longe, carregando uma pasta grande com displicência – lá estavam várias pessoas. Das muitas que o notaram não houve uma que deixara de formular-lhe teorias comportamentais, psicológicas e até algumas acerca do magnetismo nos olhos do sujeito – haverá quem diga: “não só nos olhos”. Era um homem com uma aliança acima do calcanhar. Deveria representar algum pacto com Deus, como fazem alguns religiosos. Ou com o Diabo – como fazem alguns filósofos e interessados no assunto. Parece que pensava, na vida ou na morte da bezerra, talvez não; e pensava na comida em casa – se tivesse qualquer um dos dois – ou num plano de morte ou suicídio. No cordão, duas miçangas de tamanhos diferentes: a maior e mais disforme era preta (com algumas partes destingidas, como se estivessem raladas, mostrando a bruta madeira), enquanto a mais formosa e pequena era apenas branca e simples. Era notado de cima a baixo. Quando dirigiu sua mão ao rosto, via-se uma pequena ferida na parte inferior esquerda do queixo, onde acabava a barba, do tamanho de uma espinha ou pouco maior, aquele movimento foi como se o sujeito sacasse subitamente do bolso uma arma ou um canivete, e a ferida parecia um crivo que deixava escorrer uma parte do corpo da qual ele não precisava ou rejeitava. Era possível perceber algumas pessoas olhando-o incrédulas, como se não acreditassem no que viam. Era um homem com uma amarra no tornozelo, - a essa altura já haveria subido até o pescoço – e parecia uma marcha em romaria ou um tanque de guerra andando em praça pública – o que já fora normal de se ver, tempos atrás. Ele desfilava escorregando a sola do chinelo no chão suavemente, como se ensinasse tal arte ao mundo. Era um andarilho, um mendigo, um vagabundo, mas parecia estranhamente compenetrado em contemplar o nada, o caos que Deus ainda não desfez. Não olhava pra trás ou para o lado – talvez nem para frente. Ora um gênio, ora um Frank Stein; ora um “gentleman”, ora um pedinte; ora bom, ora ruim; verdade e erro. 
Era uma mulher com uma fita no cabelo. Sentaram e tomaram conversa. Seu sorriso tão natural denunciou sua humanidade singela no momento em que a encontrou, sabe-se lá o que pensariam ainda desse sujeito, mas tinha agora uma tornozeleira.

Guilherme Fontoura.

6 de abr de 2011

Segundos

A sensação da doença 
se deleitando com o corpo
abre-se uma vala imensa
o peito ao meio, absorto


O descomedimento hilariante
se faz claro de se crer
a inspiração lancinante
que não se pode ver


Guilherme Fontoura.